Diário de bordo

Conheça tudo o que está acontecendo no Centro de Treinamento do técnico Larri Passos. Já no Diário de Bordo você entra nos bastidores da rotina e curiosidades de treinamentos e competições pelo mundo afora.


A Intuição e Convicção que mudaram o backhand do Guga

 

O técnico Larri Passos revela como a intuição e a convicção foram fundamentais em seu trabalho com o Guga e de que forma ele desenvolve isso com outros jogadores.

 

 

 "Quando a intuição surgir, tenham convicção de que o resultado será positivo".


Oi, pessoal, neste Diário de Bordo vou relatar uma história que acho muito interessante compartilhar com vocês. Pela primeira vez, tiro da gaveta uma das fórmulas do sucesso do backhand do Guga. Isso aconteceu graças à nossa intuição e convicção. Essas duas particularidades me ajudaram bastante e até hoje aplico muito em meu trabalho, porque considero essenciais para o nosso dia a dia como treinador ou tenista, ou por qualquer um que está sempre diante de uma tomada de decisões.

 

A decisão que eu precisei tomar aconteceu em 1990. Estava em São Paulo, no Esporte Clube Pinheiros. Foi o meu primeiro encontro profissional com o Guga. Ele começaria a treinar em nossa equipe. Fomos bater bola em uma das quadras do fundo do clube e me deparei com um problema sério: Guga tinha um revés de duas mãos com o braço esquerdo esticado demais! Ou seja, não conseguia acelerar e só empurrava a bola. Lembrei disso com o Guga dias antes do jogo exibição dele com o Djokovic (17/11/2012-Rio de Janeiro/RJ). Recordamos da mudança que fizemos na época, quando aproveitei o cancelamento dos jogos, por causa da chuva, para fazer uma grande modificação com o Guga. Lembro de ter dito para ele: “Vamos mudar aqui o teu backhand” e o Guga topou. Depois de três dias, ele já conseguia fazer a transição do revés com duas mãos para uma só. Anos depois, Guga tornava-se um dos melhores tenistas do mundo com o revés de uma mão!! Naquele momento da mudança, o que contou foi a minha intuição conjugada a uma convicção do Guga de que aquilo daria certo. E realmente deu. Semanas seguintes, Guga já estava vencendo os torneios em Santa Catarina com o novo revés. Assim, fica registrado, pela primeira vez, a história do revés do Guga, um dos backhands mais famosos do circuito de tênis, e admirado por muitos jogadores como Roger Federer, Richard Gasguet, entre outros.

 

Para vocês que estão trabalhando com jovens jogadores, fica aqui a dica: trabalhem com a intuição e a convicção. Procurem usar as seguintes palavras olhando para os olhos de seu pupilo: “Vamos trabalhar isso que vai dar certo”!! Lógico que as decisões e mudanças devem estar de acordo com os parâmetros biomecânicos corretos e com o estilo de cada jogador.

 

Outro exemplo que aconteceu comigo foi em 2007, quando trabalhava com a austríaca Tamira Paszek. Minha jogadora tinha recém completado 16 anos e estava na última rodada do qualificatório do Australian Open. Fomos para o aquecimento. Pedi pra ela usar alguns slices de esquerda, caso fosse necessário usar na direita da adversária Ivana Lisjak, que jogava forte demais.

Aconteceu algo incrível! No match point, começou um rali entre elas. Tamira usou o slice duas vezes e ganhou o jogo (4-6,6-4,6-4). Passou, pela primeira vez, para a chave principal de um Grand Slam e foi até à segunda rodada. Naquele momento que venceu o jogo, no erro da croata, Tamira olhou para mim e começou a rir, pois tinha acontecido exatamente o que ela havia treinado.

 

Esse insight também pode acontecer muito na cabeça de vocês. As ideias aparecem repentinamente, seja antes de entrar na quadra ou antes de um jogo. Quando a intuição surgir, tenham convicção de que o resultado será positivo. Se não der certo, não desistam, continuem tentando. Costumo dizer aos jogadores: “Vocês não erraram, apenas se desviaram do caminho”. Isso ajuda muito..

 

Vamos em frente, pessoal!! Hoje a minha intuição me diz que terei um final de ano cheio de saúde ao lado de minha família. E tenho convicção que assim será!!

 

Um grande abraço para vocês e Feliz Natal!!

Larri Passos    

 

Foto: Rivo Biehl 

29/11/12

Uma Homenagem Eternizada

Oi, pessoal. Escolhi abrir o Diário de Bordo com uma história que me marcou muito. Em maio do ano 2000, eu e o Guga nos preparávamos para o Torneio de Roma. Estávamos ainda no Brasil e meu telefone de casa tocou. Era a ligação de um amigo de Novo Hamburgo (Rio Grande do Sul) me dando a triste notícia que meu grande mentor e incentivador havia morrido. Adanilo Müller, aquele que me deu a primeira raquete já não estava mais aqui entre nós. Liguei para o Guga e decidimos que eu deveria ir para Novo Hamburgo. Precisava me despedir da pessoa que mudou o meu destino.

 

Dias depois, estávamos firmes de novo nos treinos. Guga olhava para mim e sabia do quanto que eu estava abatido. Guga conheceu o Adanilo em 1993 e sabia como eu me relacionava bem com “velho”, era assim que eu o chamava. Na quadra, Guga conversou comigo e disse: “Larri, vamos fazer uma homenagem para ele. Agora, ele torce pra gente junto com meu pai”.

 

Seguimos para o templo romano. Guga adorava aquele lugar. Eu, como sempre, focado total no torneio mas, dentro de mim, só pensando e querendo muito que aquele lugar especial trouxesse uma homenagem ao meu guru. Guga foi para final contra Magnus Norman. Mas perdeu em cinco sets. Naquele tempo, as finais eram disputadas em melhor de cinco sets e com 64 jogadores na chave principal. Se o jogo tivesse terminado em três sets, Guga levaria a melhor pois liderava por 2 sets a 1. Meio complicado, mas o melhor estava por vir.

 

Em Hamburgo, na Alemanha, Guga devolveu a derrota para o Norman em dois sets e foi para a final contra o Marat Safin. Foi um dos melhores jogos do Guga no saibro! O jogo estava duríssimo. Safin quebrando tudo e não largava o jogo. Uma hora, Guga se virou para mim e disse, “contra mim esses caras não entregam nada!” Eu ali, o motivando e torcendo para sacar minha bandeira do Brasil. Confesso que foi um dos jogos mais excitantes para mim. Queria muito aquele título para poder olhar para o céu e fazer a minha homenagem.

 

A vitória veio no tie break do quinto set. Guga saiu correndo e veio ao Box. Nós dois nos abraçamos com a bandeira do Brasil e gritamos juntos: “É pra ti, Adanilo!” Guga tinha dessas surpresas. Uma foto foi tirada e rodou o mundo. Ninguém nunca imaginava o significado daquele momento recheado de emoções, lutas e engajamentos.

 

Depois do título, pausa pra um descanso. Logo teríamos Paris. Na quarta seguinte, quando chegamos a Roland Garros, fomos para o vestiário e qual foi a primeira pessoa que encontrei pela frente? Pete Sampras! Ele me cumprimentou pelo título e queria muito saber porquê eu e o Guga estávamos tão eufóricos nas comemorações na Alemanha. Contei a história para ele. Pra minha surpresa, me abraçou e começou a chorar. Sampras também tinha passado por um episódio semelhante, com a perda do técnico dele, o Tim Gullikson.

 

Daquela famosa foto, foi pintada uma tela pela artista Suzana Dorigatti, de Balneário Camboriú. Guga descobriu a pintura e me deu de presente de aniversário. Foi muito emocionante! Hoje, a imagem faz parte da decoração de meu apartamento em Balneário Camboriú com um lindo painel projetado para expor a tela.

 

Ali está a imagem do título, mas retrata o momento especial em que pude agradecer ao meu mentor a grande oportunidade de me transformar no que sou hoje. Além de ter mudado minha trajetória de vida, Adanilo me ensinou princípios de disciplina, respeito e humildade. Você me ensinou a fazer o simples e seus ensinamentos me guiarão sempre, Adanilo! Obrigado, velho, você estará sempre comigo!

LARRI

29/10/12
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